No Fragor da Batalha

Campanha de Financiamento Coletivo

ATENÇÃO: A estimativa para o início dos envios dos livros está prevista para a partir do fim do mês de setembro de 2023. Faremos todo o possível para que seja possível antecipar esse prazo.


É grande o desafio de escrever uma Apresentação para este livro. Trata-se de um tomo gordo, plural, profundo. Poderia adotar um sem-número de estratégias para dá-lo a conhecer ao leitor. A mais óbvia delas, talvez, seria indicar a alucinante variedade de temas que Carlos Nougué aborda aqui: da lógica à realeza de Cristo, passando pela biologia darwiniana, pelo liberal-conservadorismo, pelo Islã, pelo tradicionalismo, pelo milenarismo, etc. Santo Agostinho, Maurras, Biden, Lula, o Pe. Gregory Hesse, o assassino serial Lázaro, o Cardeal Caetano, Bolsonaro e Roberto de Mattei são só algumas das personagens que encontraremos nestas páginas fumegantes, honestas, impregnadas de amor à verdade. Mas essa tática também seria a mais enfadonha. Prefiro, antes, destacar, digamos, o “exemplo” que podemos colher desta compilação de textos de confronto – ou de batalha (“polêmica” seria um termo por demais rasteiro para designá-los).

Começo pelo mais claro: um intelectual fala, essencialmente, em primeira pessoa; em nome próprio. Não digo, veja bem, que o intelectual deva pretender-se “inclassificável”. Há algo de adolescente na imagem popular do “maverick intelectual”: do pensador irrotulável, singular, culturalmente cosmopolita, que pretende reunir em si – como em uma síntese ou culminação? – várias tradições ou correntes de pensamento díspares. Não. Nougué é católico, tomista e tradicionalista.  Tem um referencial claro e expresso. O que digo é que o intelectual verdadeiro não fala em nome de uma tradição. Ele fala em nome próprio. Não é o representante de um grupo. Sua autoridade vem do que diz e de sua pessoa; não é a autoridade de uma coletividade. Entendê-lo, e assumi-lo, é importante para a maturação de quem estuda, porque é só assim que o intelectual se percebe como o responsável pelo que diz, em vez de ceder à tentação de compartilhar ou projetar suas culpas.

O sectarismo é um perigo muito atual. No Brasil, floresceu nas últimas décadas um meio cultural liberal-conservador, de que muitos católicos se aproximaram. Trata-se de um conjunto ainda incipiente e desarticulado de iniciativas que pretendem contrapor-se à hegemonia cultural da esquerda em nosso país. O leitor encontrará neste volume vários textos de crítica a certas ideias deste meio cultural (vide o essencial opúsculo “A infernal gangorra direita/esquerda”). Aqui, limito-me a observar que uma característica deste meio é a reatividade; o “ele não”, paradoxalmente. Daí o desconcerto das iniciativas, a dispersão dos empreendimentos; porque o que une esses esforços é meramente a recusa a uma opção política (certamente merecedora das críticas que lhe são dirigidas). E, neste contexto, em que a solidão é inevitável e dura, é grande a sedução do sectarismo. Formam-se bolhas, grupelhos, e cai-se na lógica maniqueísta que contrapõe os “de dentro” e os “de fora”. A salvação virá do “meu” grupo, e o que não vem do “meu” grupo é necessariamente mau. Podam-se esforços de terceiros, que não seguem exatamente a nossa cartilha, e evita-se, por outro lado, o esforço de autocrítica. Neste sentido, este livro é um antídoto contra o sectarismo. Dissemos acima que nosso autor é católico, tomista e tradicionalista. Pois bem: os problemas do meio católico, tomista e tradicionalista são, talvez, os mais debatidos nesta obra. O que significa que a batalha que o autor empreende nestas páginas é também, e sobretudo, interior. Não é apenas uma denúncia “dos outros”; é um esforço de autopurgação, que faríamos bem em emular.

Uma segunda lição que este livro, como um todo, nos ensina é que a vida de estudos é necessariamente pessoal; é um caminho muito íntimo e não perfeitamente cartografável – ou melhor, redutível a uma “lista de regrinhas”. Há muito de imponderável na formação de um intelectual. Fala-se bastante em educação clássica hoje em dia no Brasil. Destaca-se a importância do latim, das artes liberais, da leitura dos clássicos, etc. Tudo isso é muito bom, claro (acabo de falar mal do sectarismo; seria fantástico praticá-lo justo no parágrafo seguinte [seria também sintomático e, aliás, uma jocosa confirmação do meu ponto]). Mas há o risco de reduzir a busca da “alta cultura” a uma tabelinha de deveres a ser cumpridos pelo estudante; a um rígido “passo-a-passo” para a sabedoria. É evidente: a dispersão intelectual é má. Santo Tomás contrapunha a estudiosidade à vã curiosidade. Ler desordenada e aleatoriamente é desbastar as próprias energias; é desperdiçá-las em um deambular infinito e superficial, em vez de empregá-las no esforço de cavar fundo em busca de um filão de ouro. Um dos cavalos de batalha de Carlos Nougué é justamente a recuperação da devida “ordem das disciplinas”, pelo aperfeiçoamento do esquema clássico das artes liberais. Há, sim, uma ordem que seguir na vida intelectual. Mas Nougué também destaca, juntamente com o Padre Álvaro Calderón, que as várias disciplinas da vida intelectual devem ser percorridas de forma “helicoidal” ou “espiral”. Há um “ir e vir” entre as várias áreas de estudo, que confere vivacidade e plasticidade à leitura; que faz da vida de estudos justamente uma vida.

A palavra “ordem” é decisiva. O que é necessário na vida de estudos é exatamente ordem, não regrinhas rígidas – coisa radicalmente diferente. Estas últimas podem até ser úteis para muitos e em um primeiro momento, mas em última análise a vida de estudos deve preservar o incalculável; abrir espaço para o acaso e para a Providência. Quantas vezes não nos cai na mão, no momento preciso, um livro que responde à questão mesma que nos ocupa presentemente? Se, porém, tenho a obrigação de seguir uma listinha imutável de leituras, posso recusar a graça recebida. Que grande pena. A vida de estudos é guiada por certas perguntas – universais, por um lado, mas muito pessoais, por outro – que nossa própria caminhada nos sugere. É preciso tê-las sempre em mente, enquanto percorremos a ordem das disciplinas. Ou seja, é preciso não transformar essa mesma ordem em um rígido “manual” para a sabedoria. É pouco sábio fazê-lo. É transformar em um trabalho pesado e molesto uma jornada que pode, e deve, ser muito mais leve e divertida; mais arriscada, mais interessante, mais imprevisível.

Deveremos sempre voltar àquele conjunto de disciplinas. A vida toda; de novo e de novo. Será sempre preciso, por exemplo, revisitar a gramática e a lógica, para temperar nossa linguagem e nossa razão, e então mergulhar outra vez nas várias ciências práticas e especulativas para as quais aquelas disciplinas justamente nos preparam – em um círculo virtuoso e permanente. Santo Tomás dizia que não devemos lançar-nos de chofre no oceano do conhecimento, mas acessá-lo por córregos e riachos. Talvez possamos acrescentar que cada um de nós deverá encontrar o seu próprio riacho: um conjunto, digamos, “biográfico” de problemas filosóficos que estudar. Neste livro, o leitor verá bem mais que embates e controvérsias: verá o pedaço de uma biografia; uma inteligência lidando com questões que lhe são, pessoalmente, muito caras – e também uma inteligência atenta ao seu entorno, aos desafios que às vezes as circunstâncias imprevistas da vida lhe apresentam.

Por fim, destaco uma terceira lição que podemos extrair deste livro: o filósofo busca o todo. Ou por outra: ele nunca se esquece do todo. Ele especializa-se, sem dúvida, porque tem sempre em mira as “suas” questões, como venho de dizer. Mas ele não perde de vista a ordem geral do saber. E, quanto a isso, o filósofo tomista está em uma posição privilegiada. Sertillanges falava do tomismo justamente como o “quadro ideal do saber” ou ainda como o “quadro da ciência comparada”: aquela doutrina perene e elástica dentro da qual é sempre possível encaixar novos insights e novas descobertas, e na qual os conhecimentos das várias ciências e artes particulares ganham inteligibilidade porque ela é encimada por uma visão metafísica da estrutura inteira da realidade. No coração do tomismo, há uma metafísica original e imorredoura (que, aliás, Nougué nos apresenta, aqui, no monumental opúsculo “O tomismo do Cardeal Caetano”). O filósofo tomista é essencialmente alguém que, ao debruçar-se sobre as várias ciências e artes particulares, não perde de vista o quadro metafísico que lhes dá um lugar e inteligibilidade. Este livro ilustra este ponto muito bem, pela universalidade de seus temas e pela cerrada unidade de sua doutrina.

Há muitas outras lições por recolher das páginas desta obra. Mas não quero estragar o prazer do leitor de fazê-lo por conta própria. Nem transformar o dito acima em uma listinha de lições engessadas por seguir rígida e estreitamente. Encerro, porém, indicando uma prova de quão frutuoso, pedagogicamente, é o exemplo que Nougué nos dá nestas páginas. No final da obra, Nougué incluiu dois opúsculos saídos da pena de dois jovens tomistas, alunos seus: Pedro Valeriano e Urlan Salgado de Barros. São textos igualmente corajosos e atuais, que dão testemunho de que há uma excelente safra de novos tomistas aparecendo no Brasil. O exemplo arrasta. Tenho certeza de que o leitor, além de aprender um bocado, vai sentir-se inspirado pelo exemplo de “franco falar” – a célebre parrhesía dos antigos – que esta obra nos apresenta.

Daniel C. Scherer, autor dos livros Entre Capelas e Tabernas, Metafísica da Revolução: Pressupostos do Liberalismo e A Raiz Antitomista da Modernidade Filosófica.

Formato: 16X23 (brochura) com orelhas
Número de páginas: 512
O valor total do projeto será utilizado para os seguintes fins:
– Revisão
– Edição
– Diagramação
– Capa
– Produção gráfica e eletrônica
– ISBN, Ficha Catalográfica e outros
– Empacotamento
– Envio pelos Correios
AVISO 1: Após o encerramento da campanha e a entrega aos colaboradores (prevista para a partir do fim de setembro de 2023), novos exemplares serão colocados à venda, mas com preços acima dos praticados na campanha e com frete por conta do comprador. Por se tratar de um livro volumoso, o frete economizado durante a campanha é de pelo menos 20 reais.
AVISO 2: Os primeiros colaboradores receberão brindes (marcador de página, ímã de geladeira, cupons de desconto, etc.).

ATENÇÃO: A estimativa para o início dos envios dos livros está prevista para a partir do fim do mês de setembro de 2023. Faremos todo o possível para que seja possível antecipar esse prazo.

Recompensas

Meta Bônus

Caso a meta passe de R$22.000,00 iremos enviar o livro em capa dura.

R$21,756
Alcançado de R$18,000 (Objetivo)
198
Colaboradores
Encerrada emm
December
31
1969
 
Campanha de Financiamento Coletivo
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